Eu não tinha formação acadêmica em Direito, por isso, todo serviço novo que se me apresentavam, era algo totalmente desconhecido. Findo o ano de 1978, terminou o mandado do Dr Roberto de Queiroz na Diretoria do Foro. Para o ano de 1979, foi escolhido o Dr Hugo de Brito Machado, que era então juiz federal da 2a. Vara. Era costume, quando mudava a Diretoria do Foro, haver alterações na locação dos Servidores, de modo que todos ficavam aguardando a nova Portaria com as mudanças.
Esta saiu no último dia de janeiro de 1979, passando a vigorar no dia 1 de fevereiro daquele ano. Eu fui remanejado do setor de processos criminais para o setor de execução fiscal. Entre os Servidores, havia um certo receio de trabalhar nesse setor, porque lá havia um número enorme de processos, estimado em 3.000 ou mais. Esse era o meu novo desafio: aprender outra matéria jurídico-processual e movimentar aquele amontoado de cadernos processuais de cor alaranjada. Enquanto os processos criminais eram volumosos (tinham cerca de 200 folhas cada volume) e não passavam de uma centana, os processos fiscais eram bem fininhos (tinham cerca de 5 a 10 folhas cada) e eram milhares e em contínua progressão, pois todos os dias, chegavam mais, antes dos anteriores terminarem.
Eu fui lotado no setor de execuções fiscais do juiz federal Dr Vicente Leal, cujo chefe era o colega José Távora, auxiliado pelo colega Cícero Braga e por mim. A minha principal tarefa era datilografar as cartas de intimação, os mandados, as guias de recolhimento e as sentenças. Os outros colegas faziam o atendimento das partes e despachavam com o Juiz. Eu sempre tive grande habilidade para datilografar, mesmo naquelas máquinas de escrever antigas, totalmente mecânicas (na época, as máquinas de escrever elétricas eram raras, só havia delas nos gabinetes e salas de audiência). Eu passava o expediente inteiro a datilografar: duzentas cartas de intimação, eu fazia numa tarde. Já havia o texto padrão impresso, bastava preencher com os dados específicos de cada processo, era rápido. As cartas eram postadas e, cerca de uma semana após, começaram a chegar as pessoas, atendendo às notificações. Grande parte era constituída de pequenos débitos fiscais, que as pessoas logo quitavam, então aqueles processos onde havia pagamento ficavam na fila para serem sentenciados e arquivados. Lembro de um mês em que chegamos a arquivar mais de 700 processos, o que era um fato inédito.
O colega Cícero Braga me revelou que o Dr Vicente Leal ficou entusiasmado quando viu a estatística com tantos processos sentenciados e então ele comentou: é um colega novato que chegou agora no nosso setor que está fazendo essa movimentação. Este fato levou a uma maior aproximação entre mim e o Dr Vicente Leal, a quem eu conhecia apenas superficialmente. Ele era piauiense e quando soube que eu também era do Piauí, ficou muito feliz e dizia: é da terra santa.
A minha maior aproximação com o Dr Vicente Leal também me levou a visitas mais frequentes ao seu gabinete, onde trabalhavam as Servidoras Zila Tavares (secretária), Graça Enéas (auxiliar datilógrafa) e Eliane (assistente das audiências). Com pouco tempo, fomos estreitando as amizades reciprocamente. No mês de março de 1979, a Zila saiu de licença gestante, pelo nascimento do primeiro filho dela. O marido dela, o Edvar, era também funcionário da Justiça Federal. Com isso, a Eliane ficou com o serviço do gabinete e a Graça cuidava das audiências, oportunizando assim que eu me comunicasse mais com a Eliane, porque ela ficava mais tempo no gabinete. Com a descoberta de diversas afinidades, passei a desenvolver maior interesse por ela e percebi que era recíproco, porque nos dias em que eu não ia dar "boa tarde" no gabinete, ela ia até a minha sala de trabalho para isso. Certo dia, o Dr Vicente Leal chegou um pouco mais tarde em relação ao seu horário costumeiro e nos encontrou conversando e fez o seguinte comentário: "é proibido namorar no gabinete". De fato, nós não estávamos namorando, mas foi uma excelente sugestão. Resultado: no meio daquele ano de 1979, começamos a namorar e no final de 1979, nos casamos. E, naturalmente, convidamos o Dr Vicente Leal para ser nosso padrinho de casamento, juntamente com a Dona Nazaré Guanabara Leal, esposa dele. Passamos a ser o segundo casal formado dentro da Justiça Federal: antes, foram a Zila e o Edvar.
O ano de 1979 foi, assim, um tempo muito importante na minha vida pessoal e profissional, pois além do casamento, foi também quando eu comecei a obter um certo destaque no corpo funcional, sendo ali o início de um período de ascensão dentro da carreira, o ponto de partida para diversos cargos e encargos que vim a desempenhar, ao longo dessa trajetória, que alcançou a marca de quase quarenta anos de atividades.
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