segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Virando a mesa

Muitas situações novas e inesperadas eu tive de enfrentar no ano de 1985. De início, o nascimento do meu primeiro filho, Roger, no último dia de 1984, ou seja, iniciei o ano de 1985 assumindo essa grande mudança que ocorre na nossa vida, que se chama paternidade. O casamento tem uma dinâmica, que se altera completamente quando começam a chegar os filhos. Assim eu e a Eliane iniciamos aquele ano de novas e indescritíveis experiências existenciais. Mas isso foi apenas o começo.

Desde que eu ingressei na Justiça Federal, eu já era professor na Faculdade de Filosofia, uma instituição da Arquidiocese de Fortaleza, que depois veio a encerrar suas atividades, em 1988. Foi fácil conciliar as duas atividades, pois havia compatibilidade de horário (as aulas eram noturnas) e não havia impedimento legal. Mas no meio do ano de 1985, abriu-se um concurso para professor de filosofia na Universidade Federal do Ceará. Fazia anos que esse concurso era aguardado e havia apenas uma vaga. Na minha atividade paralela de professor, a possibilidade de ensinar na Universidade Federal era um sonho que se assemelha ao de um jogador de futebol de uma equipe suburbana, que almeja ser convocado para a seleção brasileira. Eu via aquilo como o coroamento da minha atividade de magistério, que eu já vinha exercendo desde 1968. Só que, para isso, eu tinha de superar uma montanha, porque sendo  apenas uma vaga, somente o primeiro classificado seria contratado, ou seja, o supremo desafio era obter o primeiro lugar. Diante de um grupo de candidatos que eu não conhecia, mas supunha serem de grande competência, eu precisava sair na frente. Depois, tinha de enfrentar o problema da possibilidade de acumulação dos cargos, de acordo com as normas da época. Mas isso era um problema para depois.

Fiz a minha inscrição, recebi cópias das matérias a serem estudadas e dediquei-me a estudar temas novos e rever temas já vistos. Eram dez pontos, um dos quais seria sorteado no dia da prova escrita, para ser o tema de uma redação a ser escrita sem usar qualquer material de consulta. Concurso tem muito de sorte e a sorte me favoreceu. O tema sorteado por uma das candidatas era "O filosofar na sua evolução histórica", isto é, uma abordagem histórica sequenciada das várias tendências do pensamento filosófico, através dos tempos. Organizei as ideias na mente e comecei a escrever. O texto devia ser redigido à mão em folhas de papel almaço, num tempo de quatro horas de prova. Selecionei os assuntos, de modo a conseguir abordá-los dentro do tempo previsto e, ao mesmo tempo, observando uma sequência coerente, de modo a não omitir um assunto relevante e concluir a redação dentro do tempo estabelecido. Assim foi. Uma semana depois, seria realizada a prova didática, que consistiria em uma aula a ser ministrada perante a Comissão Examinadora. O tema da aula seria sorteado com vinte e quatro horas de antecedência. Eu sorteei o tema número 8: "A filosofia moral de Kant". Era também um assunto sobre o qual eu havia lido bastante, então a tarefa após o sorteio era preparar um esquema de apresentação oral para uma aula de cinquenta minutos. Assim também foi. Agora, era só aguardar o resultado final.

Depois de alguns dias de expectativa, eu recebi a comunicação oficial: fui classificado em primeiro lugar. Mas aí começou a segunda parte do drama, um misto de contentamento e apreensão. Mês de agosto em curso, o segundo semestre estava já se iniciando e eu precisava assumir uma sala de aula. Enquanto o Departamento de Recursos Humanos da UFC examinava o meu pedido de acumulação dos cargos, eu assinei um contrato temporário, com duração de três meses, iniciando desse modo as atividades letivas imediatamente. A minha primeira turma foi do curso de Psicologia, for uma experiência que deixou boas recordações.

Conversei com diversos colegas, visitei a Comissão encarregada da análise do pedido acumulatório e a opinião de todos era aquela que eu não gostaria de ouvir: o teu pedido vai ser indeferido. Quando chegou o resultado oficial, foi mesmo essa a decisão da Comissão. Ou seja, eu tinha de optar entre permanecer na Justiça Federal e renunciar à minha contratação na UFC, ou então, desligar-me da Justiça Federal, a fim de ser contratado. Visto que eu trabalhava, na época, na Seção de Pessoal da Justiça Federal, eu tinha conhecimento de que, em breve, seria publicado Edital para novo concurso público. Eu poderia me desligar da Justiça Federal, assumir na UFC e, logo que fossem abertas as inscrições do novo concurso, eu me inscreveria. O desafio que se me colocava era de obter aprovação nas primeiras posições, porque geralmente o número de vagas era bastante limitado. Eu contava, assim, com duas variáveis incertas e audaciosas: primeiro, torcer para que o Edital saísse mesmo, porque havia apenas promessa, não certeza; segundo, empreender todo o esforço para obter uma boa classificação no certame.

Firmando-me na fé em Deus e armando-me de autoconfiança, decidi enfrentar o desafio. E foi assim que, com a mão trêmula e o coração angustiado, redigi o meu pedido de exoneração da Justiça Federal, no final de outubro de 1985. No primeiro dia de novembro, assinei o contrato na UFC. Não era exatamente assim que eu pretendia, mas eu sempre tive muita confiança na providência divina e tinha por certo que aquele meu afastamento da Justiça Federal seria provisório. Na despedida, todos os colegas se admiraram da minha coragem e lamentaram que tivesse de ser assim. A vida sempre nos põe diante de escolhas decisivas, é preciso ter coragem de assumir o risco. E foi assim que, em 31 de outubro de 1985, eu encerrei a minha primeira fase de trabalho na Justiça Federal. Novos desafios me esperavam na UFC.
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